Comunicado do Núcleo Regional dos Açores da Liga Portuguesa Contra o Câncro

10 de Maio de 2016

No âmbito das comemorações dos 50 anos do Núcleo Regional dos Açores da Liga Portuguesa Contra o Cancro (1966-2016), foi aprovada em Assembleia-Geral da instituição a realização de actividades que, de certo modo, fossem ao encontro da cultura e tradição de cada uma das ilhas.

Neste sentido, idealizou-se especificamente para a ilha Terceira, por ser uma das regiões de Portugal com maior tradição taurina, um Espectáculo de Beneficência a favor do Núcleo Regional da LPCC.

Note-se que, em relação a esta matéria, não existe nos estatutos da LPCC nem em documentos emanados da Direcção Nacional, qualquer impedimento à organização de touradas para angariação de fundos. Para além disso, as touradas em Portugal têm o seu devido enquadramento legal pelo que do ponto de vista formal nada existe que vá contra os referidos estatutos ou contra a lei.

O Festival de Beneficência começou assim a ser organizado a partir do momento que colheu a aprovação de todos numa Assembleia-Geral do Núcleo Regional. Como seria de esperar, convidámos a Tertúlia Tauromáquica Terceirense, que curiosamente comemora também este ano o seu 50º aniversário, bem como o Grupo de Forcados Amadores da TTT a organizar conjuntamente esta actividade. É já bem conhecido o espírito beneficente destas duas igualmente veneráveis instituições (TTT e GFA) que, prontamente, acederam a colaborar por uma causa tão nobre como é a da luta contra o cancro. Tal foi o que nos moveu desde o início, pelo que a boa fé, o empenho e o desejo de ir ao encontro da cultura e tradições locais não podem, assim, ser postos em causa.

Foi com o mesmo espírito que cavaleiros, toureiros (uns portugueses e outros espanhóis, sendo um deles doente oncológico), forcados e filarmónica, entre outras entidades entretanto contactadas, acederam a actuar de forma benemérita. Na verdade, dificilmente se consegue tamanha mobilização, o que só vem demonstrar a dignidade e importância de que gozava o acontecimento.

Os compromissos estavam, assim, estabelecidos e o Espectáculo foi publicamente apresentado no passado dia 3 de Maio, em conferência de imprensa realizada na Sede do Núcleo Regional da LPCC.

Entretanto, um post no Facebook da LPCC, que vale o que vale, vem informar a comunidade de que a Direcção Nacional é absolutamente contra a realização de touradas ou espectáculos semelhantes, tendo diligenciado pelo cancelamento do referido Festival. Por respeito institucional, decidimos pela desvinculação da organização do evento, o qual, conforme já foi anunciado, manter-se-á, desta feita em benefício do Serviço Especializado de Epidemiologia e Biologia Molecular pela investigação na área oncológica. Congratulamonos com esta decisão pois mostrou-se, por um lado, de que fibra é feita o povo terceirense e, por outro, o espírito benfeitor que o caracteriza. E porque a causa se mantém, apelamos à participação neste Festival em prol do nobre contributo para a investigação científica numa área tão necessária como é a do cancro.

Contudo, não podemos deixar de afirmar que não nos revemos neste comunicado nem o subscrevemos. O NRA não foi consultado neste processo nem a mim, como membro da Direcção Nacional, foi solicitada qualquer revisão e/ou aprovação do texto publicado. Consideramos que a autoridade da Direcção do NRA foi posta em causa, comprometendo a sua imagem e posição junto da sociedade açoriana e mais particularmente junto dos terceirenses, que também não merecem que uma instituição com a reputação da LPCC se pronuncie sobre aquilo que são os seus valores culturais e tradições centenárias. Aliás, em nosso entender, a LPCC deve abster-se de assumir uma posição sobre matérias que nada têm a ver com o seu fim último.

Organizar uma tourada para fins de angariação de fundos não é, de todo, assumir uma posição sobre seja o que for. No caso em concreto, tratou-se simplesmente de ir ao encontro daquilo que de mais genuíno existe no povo terceirense: a paixão pela festa brava. O comunicado no Facebook, como aliás a maioria dos protestos endereçados à LPCC, transmitem a ideia de se estar a angariar dinheiro de forma, dir-se-ia, quase criminosa, fazendo dos cavaleiros, dos toureiros, dos forcados e, porque não, de todos os que ao espectáculo assistem ou a ele se associam, gente que não tem escrúpulos nem olha a meios para atingir fins.
Porque somos pessoas de bem e de compromisso para com os princípios e estatutos da LPCC, respeitando a vontade daqueles que nos elegem, apresentamos publicamente a nossa decisão de demissão de maneira a serem convocadas eleições, para que os sócios do Núcleo Regional se possam manifestar, mostrando a todos como a Liga está bem viva nos Açores. Demarcamo-nos assim, de forma muito clara e inequívoca, da informação veiculada no Facebook da LPCC e estamos confiantes que a Liga nos Açores ainda sairá mais reforçada na sua missão e nos seus objectivos.

Acreditamos que a LPCC, como instituição que há 75 anos se desdobra em iniciativas para acudir àqueles que pela doença são atingidos, mantendo uma reputação sem igual junto da sociedade portuguesa e gozando de um prestígio que vai além das convicções políticas, religiosas e pessoais, não sairá comprometida neste processo, pois o seu espírito e missão estão acima de quaisquer divisões que possam existir entre os seus dirigentes. Assim o merecem os doentes, as suas famílias, os voluntários e os funcionários, que, juntos, fazem da LPCC a instituição de referência da luta contra o cancro em Portugal.

A Direcção do NRA
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